"Estamos todos deitados na sarjeta, mas alguns estão olhando estrelas"
Oscar Wilde

8 de fev de 2010

Minha meta

Eu nunca fui de criar metas, sempre fui meio hippie, deixando a vida me levar, sem fazer planos, sem tentar controlar o amanhã. Nunca tive um objetivo que não fosse viver plenamente o dia de hoje, cada minuto, cada segundo, como se fosse o último. Acho que por que assisti pessoas que poupavam e faziam planos partirem sem tempo para realizar sonhos é que passei a não acreditar em amanhã. Me fez pensar que não valia à pena poupar, guardar, aguardar. Me fez sentir que era melhor viver o agora e ponto final.


Mas este ano, sei lá, eu tenho um desejo. É um desejo tão forte, tão urgente, que me vejo obrigada a calcular todos os meus passos para conseguir o que quero. Eu quero muito sair de São Paulo. Quero morar em uma cidade do interior, de preferência no meio do mato, de preferência com janela dando vista para alguma árvore enorme e cheia de passarinhos ou um lago. Quero acordar de manhã e não ouvir a sinfonia caótica das buzinas malcriadas, dos gritos que tentam ultrapassar os decibéis do trânsito, nem os berros dos feirantes e seus gracejos toscos. Não quero mais andar pelas ruas com um baita medo do carro que vem de lá, do outro que vem de cá e do farol que parece não funcionar muito bem. Cansei do calor que vem do asfalto, do olhar desconfiado dos vizinhos, do medo da noite, do portão sempre trancado, da agressividade crescente de um povo oprimido pela pressa. Cansei de ter medo daquele homem que vem cambaleando rente ao muro, de tolher a liberdade da minha filha e de tentar protegê-la colocando-a diante da tv.

Eu quero viver num lugar onde eu conheça as pessoas e elas me conheçam. Onde eu possa andar descalça na terra, onde possa pescar de vez em quando e brincar de plantar qualquer coisa só pra ver se levo jeito.


Não, eu não vou sentir falta de nada que esta cidade oferece. Eu não sinto agora, não vou sentir quando tiver o que sonho. Nesta altura do campeonato eu já sei que não me identifico com uma metrópole, que não levo jeito para viver aqui. Nesta altura do campeonato nada aqui me encanta, eu que não gosto de multidão, barulho e balada.

Este ano eu me dei conta que a única coisa que realmente me incomoda neste vida é esta sensação constante de estar deslocada, de ter me perdido do meu caminho, de ter nascido aqui por acidente. E eu não quero mais conviver com esta insatisfação, eu quero MESMO sair daqui. E por isso, pela primeira vez, tenho uma meta, um objetivo claro e eu vou fazer tudo o que puder para influenciar o amanhã. E olha só, não estou sozinha nessa, o João compartilha comigo este desejo, é sorte demais.

Pode parecer uma coisa muito boba, ela tem esse sonho tão singelo, que tolinha. Mas eu digo que, prestes a completar meus 37 anos, já absorvi desta cidade tudo o que podia. Já andei por estas ruas suspeitas, já virei as madrugadas por ai e conheci pessoas de todos os tipos. Já vi as cenas mais bonitas e as mais cruéis, já respirei São Paulo demais. Eu não preciso mais desta cidade e ela certamente não precisa de mim. E depois de ter atravessado uma vida toda sob o jugo de escolhas que não fiz (eu não escolhi meu nome, meu local de nascimento, minha família, minha aparência e vai...), caceta, eu mereço pelo menos decidir onde é que eu quero envelhecer.

Em no máximo três anos espero conseguir desatar todos os nós e transferir meu destino para algum lugar mais habitado por árvores que por pessoas e que essas pessoas sejam receptivas e simpáticas, menos desconfiadas que as que encontro por aqui. Desejo-me sorte.

*** Aproveitar para agradecer o carinho das boas-vindas do Cidão e do Luan ao Ás de Espadas. Beijão pros dois ;) ***

4 comentários:

Fernando disse...

Isso é normal. Acho que é uma característica nomade que ainda possuimos. Após desfrutar de tudo o que o lugar tem a nos oferecer, temos a necessidade de sair daquele local e ir procurar um novo lugar, com novas oportunidades, novas características, novos recursos...

Minha mãe tem esse sonho de sair daqui de São Paulo, também. Eu ainda não. Talvez porque ainda não esgotei todas as possibilidades que a cidade me oferece. Eu AINDA gosto de São Paulo.

Mas quando essa vontade aparecer pra mim, aposto que não pensarei duas vezes em transformar isso em realidade.

P.S.: Não comentei aqui no primeiro post porque ainda não tinha a opção "Nome/URL". Por isso os desejos de progresso com o blog foram pelo twitter.

P.S.2: Minha avó mora em Bragança Paulista, ela adora a cidade. Eu não tenho o que reclamar de lá, cidade muito gostosa. Ela não é no meio do mato, tem civilização bem a vista, mas é cheia de verde e talvez seja o que procura.
Tem a parte mais pobrinha da cidade, mas tem aqueles bairros mais chiques, e geralmente quem mora nesse bairros são exatamente pessoas que fogem de São Paulo. O Jardim Europa, por exemplo, é todo na beira de um lago. As janelas da casa da minha vó dão de frente para ele. Uma maravilha! Fica dica ;)

2/08/2010
Ariane disse...

Fernando, que gostoso receber um comentário seu! Olha, anos atrás eu passei 20 dias em uma chácara em Bragança Paulista e voltei pra S.Paulo chorando, literalmente. Adoraria viver lá. Agora já não é uma coisa 'puxa, seria bom viver num lugar assim'. agora é é 'meu, como é que eu não vivo num lugar assim?'. e eu vou.

2/08/2010
crazyseawolf disse...

Sabe Ariane, eu não conseguiria sair de São Paulo. Uma vez fiquei
numacidade do interir do estado chamada de Pereiras, e juro que não agüentei a calmaria. Aquilo me irritou profundamente.
Amo Sampa e não consigo ficar sem o seu barulho, sua sujeira, sua agitação. Tudo isso está impregnado em mim. :)

2/08/2010
JPFOX disse...

Olá Ariane,
Por morar meus 29 anos de vida em uma cidade que por enquanto pode-se simplesmente esquecer de trancar o portão ou ter a oportunidade de conhecer 90% da população, sinto um pouco a falta de uma balbúrdia. Não sei. Como você mesmo disse, quero mudar.
Adorei os primeiros posts.
Inté mais,

2/09/2010

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