"Estamos todos deitados na sarjeta, mas alguns estão olhando estrelas"
Oscar Wilde

17 de fev de 2010

Eu sou de Peixes fora d'agua


Eu sempre tive uma grande dificuldade em manter amizades. Ultimamente virou praxe ler em bios e perfis coisas do tipo 'mal-humorado(a), sarcástico(a), irônico(a), não gosto de gente...' e blá blá blá, como se isso quisesse dizer: olha, sou inteligente, tão inteligente que é raro gostar de alguém. E não é o meu caso: não sou mal-humorada e gosto das pessoas. Eu gosto de gente, minha risada é fácil, minha simpatia é grátis. Mas sei lá, amizade é uma coisa muito difícil de fazer, de manter, de sobreviver por muito tempo.
 
Por que eu pensava que amizade era assim: eu gosto de você, você gosta de mim e não há censura. Mas não é bem assim, por que aprendi logo cedo que tudo vai muito, muito bem enquanto você concorda com as pessoas. Mas quando não concorda e diz isso claramente: sorry, não concordo, tenho outra opinião, ai já era, ai a tal amizade fica abalada.

Então as amizades se constroem na base da simpatia de comadres? ah, concordo cem por cento com você querida! aham, isso mesmo...Se é preciso fazer isso eu prefiro mesmo ficar aqui no meu canto quietinha, sem amigos, mas livre.

Pensar e expressar opiniões diferentes da maioria sempre me custou um preço muito alto: muito cedo tive que optar entre ser do time do eu sozinho ou me integrar ao cardume e sorrir muda nas discussões. E descobri que comigo é assim: você pode não gostar de mim - ok, sem problemas - mas eu gosto e seria uma violência grande demais comigo mesma fingir que não tenho uma opinião e pior, fingir que compartilho de uma opinião que rejeito.

Eu sou de Peixes, mas um peixe em fuga. Constantemente me pego sentindo e pensando de maneira muito diferente da maioria. Não sei andar em turma, em bando. Não uso coletivos. Sou o peixe que abandonou o cardume e que vive as consequências disso que é a solidão. Eu brinco que sou de uma outra espécie e que observo a raça humana e suas reações. Mas, mesmo que todo mundo pense de maneira diferente da minha, eu ainda gosto de gente, de pessoas. Eu só queria poder encontrar mais pessoas com a capacidade de gostar, de ter simpatia mesmo que as opiniões não sejam as mesmas. Não é nem uma questão de tolerância é só isso: eu gosto do jeito de fulano, como ri, como me faz rir, sua presença, sua aura. E tanto faz se ele gosta de verde-limão.

Vejo as pessoas respondendo de maneira bastante agressiva quando surge uma situação em que o outro não está disposto a dizer amém para angariar simpatia. Todo mundo se acha muito durão por que 'não leva desaforo para casa'. Todo mundo quer ter a última palavra e para defender o próprio (?) ponto de vista é incapaz de se dar a oportunidade de realmente ouvir e pensar no argumento contrário. Tomam um ' não concordo' como ofensa pessoal, agressão direta que deve ser retribuída de maneira sarcástica, ácida, corrosiva. Canso de ver, principalmente na Internet, pessoas envolvidas em discussões intermináveis  apenas por que não suportam concluir: 'talvez você tenha razão, não tinha pensado desta maneira' (e se fulano tem coragem para isso pode até acabar sendo considerado fraco por que não lutou até o fim para manter uma opinião).

O orgulho tem impedido as pessoas de trocarem e eu acho isso uma pena.

Eu sigo aqui, espectadora da multidão, que ora se une para linchar algum vilão imaginário, ora se junta para idolatrar algum herói de mentira, me perguntando sempre: de onde vem o medo de pensar/opinar sozinho?



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