"Estamos todos deitados na sarjeta, mas alguns estão olhando estrelas"
Oscar Wilde

16 de set de 2008

Liberdade



Quando era criança, sonhava em ser livre. Presa na casa pequena e modesta que não contava nem com um quintal para abrigar meu desejo de correr sem parar, colava o rostinho no vidro frio da janela e sonhava que virando a esquina, do outro lado da rua, logo ali, havia um circo e um dia eu conseguiria escapar e correr para lá e poderia então ver de perto como os trapezistas voavam pelos ares feito pássaros livres.

Eu sonhava que tinha asas e voava acima dos telhados e ninguém, ninguém podia me alcançar; eu lá  no alto, tão acima de tudo, tão perto do céu. Era tão bom sonhar assim, enquanto os meus olhos mal viam as dezenas de carros que passavam por minuto na rua movimentada e perigosa em que vivia. Às vezes, quando ia ao parque, me deitava no chão para olhar o céu e sentia aquela imensidão azul me devorando, me atraindo para o alto e parecia até sentir a terra girar sob o meu corpo. Nem sei explicar. Sentia medo, vertigem. Era espaço demais, era céu demais e eu queria voar.

Adolescente, tantas e tantas vezes eu me ressenti com todos os nãos que vinham sem explicação, sem justificativas. Era não e pronto. E eu que era tão esperta, e eu que era tão inteligente, reconhecia nas constantes negativas uma ignorância muito grande, uma falta de confiança na minha suposta maturidade que me ofendia até os ossos, que me fazia sentir um rancor imenso. Eu queria, eu precisava ser livre para provar quem eu era, o que queria, o que sabia.

Tantas vezes eu quis falar e não pude. Tantas vezes eu quis chorar e não pude. Eu queria liberdade de me expressar sem ser punida. Passei então a acreditar que escrevendo poderia me libertar. Preenchia cadernos e mais cadernos com meus poemas fraquinhos, meus contos tolos de adolescente inexperiente e ingênua, minhas revoltas pueris. Mas, ao contrário do que tanto sonhei, não me tornei escritora, nem ao menos completei meus estudos. Uma pessoa, sem ser convidada, leu meus cadernos e me disse que tudo o que eu escrevia era bobagem, uma porcaria, que não entendia como alguém podia me considerar inteligente. Aquelas palavras fizeram meu sonho ruir. Nunca mais escrevi sem sentir vergonha, a mesma vergonha que eu sinto agora enquanto cutuco o teclado.

Adulta, eu queria ser livre para viajar. Queria conhecer o mundo todo, culturas diferentes, pisar onde a História se fez, onde personalidades que eu admirava haviam pisado. Queria a liberdade que o dinheiro compra para viver ao meu modo, para conhecer gente, para sair quando bem entendesse e talvez voltar nunca. E queria me livrar da solidão, viver um sonho de amor, me apaixonar.

Hoje, aos 37 anos, eu queria mais que tudo me livrar das lembranças, do passado, do peso de sentir que não sou nada, não realizei nada e sofri por tempo demais. Hoje eu busco me libertar de todas as influências, de tudo o que já me disseram e desta tristeza enorme que acorda comigo e se arrasta ao meu lado durante todo o dia. Queria me livrar destes sonhos que me acordam no meio da noite, do medo, da dúvida, desta saudade estranha que nunca descobri de quê.

Queria me livrar desse desamor por mim, eu que um dia, lá longe, bem longe de hoje, cheguei a me gostar.

Liberdade. Quem é livre? Eu não conheço uma só pessoa que possa me ensinar a ser livre. Acho que é só mais um sonho. Liberdade é coisa que não existe.

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