"Estamos todos deitados na sarjeta, mas alguns estão olhando estrelas"
Oscar Wilde

12 de jul de 2008

Pais e Filhos

Eu fico abismada quando algumas vezes assisto alguns trechos daqueles programas em que babás profissionais são chamadas para por ordem na casa de alguma mãe descontrolada e à beira de um ataque total de nervos. Fico aflita com a fraqueza dos pais, com a falta de educação das crianças e com o vexame todo sendo exposto em rede nacional. Raramente assisto até o final (aliás, raramente assisto qualquer programa na tv aberta até o fim...) e sempre que me afasto da tv fico pensando:' que diabos aconteceu entre a geração da minha mãe e tias e a minha? Onde foi que as mulheres desaprenderam a criar filhos? Será que a culpa é dessa psicologia de revistas femininas? É culpa da tal vida moderna, onde a mãe também trabalha e fica ausente?' Mas, peralá, todos os três ou quatro programas que assisti pela metade mostravam famílias onde as mães não trabalhavam fora e pareciam escravas de pivetes ditadores. Mulheres nervosas, chorando pelos cantos, enquanto os pirralhos destruíam a casa e as agrediam com palavras e socos. E em todos os programas um pai banana chegava do serviço e se trancava em algum cômodo, fingindo não ver a cara de desespero da mãe e todo o caos instalado.

Quando foi que uma mulher precisou pedir a ajuda de um programa de tv para educar seus filhos?

Minha mãe teve quatro filhos, um por ano. Eu e meu irmão imediatamente mais velho (sou a terceira) temos apenas 11 meses de diferença. Loucura, loucura, loucura, já repetiria o apresentador de programas bem-feitinhos Luciano Huck.  Mánemmorta que eu faria isso, mas ela fez, ponto. E minha tia teve seis e a outra cinco. Elas não se pareciam nem um pouco com as mães que aparecem felizes e sorridentes nos comerciais intoleráveis de margarina - berravam o dia inteiro - mas nunca que um filho respondia ou enfrentava. Havia autoridade na voz, no olhar, nos gestos e um último recurso, quando tudo o mais falhava,  era o 'vou contar para o seu pai', que fazia a pirralhada toda se borrar e ficar muda.

Aí surgiu esta coisa de pai/mãe amigo...e ferrou tudo.

Pai e mãe não é amigo. Amigo é o primo, o colega da escola, o pessoal da rua. Pai e mãe é figura de autoridade, as primeiras na vida de uma pessoa. Se uma criança não tem guardada nenhuma figura de autoridade, se é livre 'pra se expressar' e mandar a mãe práquele lugar, vai se transformar num adolescente delinquente que agride professores ou qualquer um que tentar liderar.

Minha mãe dizia não e pronto. Hoje eu vejo as mães pedindo para os filhos '...por favor filhinho, não faz assim não...' e o moleque enforcando o cachorro, '...por favor filhinha, mamãe fica triste...' e a filhinha arrancando tufos de cabelo da mãe. Você vai se matar de pedir por favor e eles não vão nem ouvir. Eles querem ver qual é o seu limite.

Criança gosta de disciplina. Criança gosta de autoridade. Criança precisa disso.
Todo animal que vive em bando tem um líder. Quando o líder morre, imediatamente é substituído por outro. É uma necessidade para que o grupo fique unido. Se o líder é fraco, não reage, um outro vem e toma o lugar.

Nestes programas o que eu vejo são pivetes de cinco, seis, sete anos tomando o lugar que deveria ser dos pais. E a vida familiar se transforma em um inferno. Aí vem uma babá de um programa de tv ensinar a ser líder, a dizer 'não'. Eu penso que estas mulheres (e estes homens) são ainda crianças mimadas, inconformadas com os 'nãos' que ouviram de seus pais. Pensam que fazendo diferente, permitindo absolutamente tudo, serão muito mais amados ou que deixarão recordações mais felizes.

Minha filha tem 3 anos mas sua inteligência é muito acima da média. Lidar com uma criança inteligente requer inteligência também. Ela tem 3 anos mas sabe manipular desde 1 ano e meio. Primeiro ela dá uma ordem. Eu digo não. Depois ela choraminga. Não. Aí ela passa a gritar. Não. Então ela me cobre de beijos, diz que me ama. Também te amo mas é não. Então ela apela: não gosto de você. Aí eu me abaixo, fico na altura dela, olho bem dentro dos olhos e digo 'você me ama sim e ama muito e eu não vou deixar fazer tal coisa'. Ela me abraça e esquece o assunto.

Você acha que eu vou me descabelar ou permitir coisas impróprias por que uma menininha de 3 anos disse que não me ama? Eu tenho 35 anos, não cinco. Quem manda sou eu. E ponto. Se eu apenas desconfiasse que seria incapaz de dizer não em benefício de um filho ou em benefício da família, jamais teria aceitado ser mãe. Por que ser mãe não é ser um poço de amor e perdão incondicional e ternura constante. Ser mãe é ser a primeira figura que estabelece limites. É perceber que é muito melhor seu filho pequeno chorar hoje por ter ouvido um não do que ela chorar no futuro vendo ele fazer um monte de besteiras e se destruir, por ser totalmente incapaz de lidar com frustrações.

Penso eu.

2 comentários:

disse...

Ariane, minha filha está com 22 anos. Me deu muito trabalho insistir no "não", mas as recompensas vem mais tarde. Vejo muitas mães que preferem "deixar" e depois consertar. Na hora sem dúvida é mais fácil, e poupa aborrecimento. Mas o estrago tá feito!!

Tem selinho pro "Comentários" lá no "Trivial", tá? Beijo e bom fim de semana!

7/25/2008
Carlos Henrique Leda disse...

Olá Ariane


Fiquei imensamente feliz ao ler este teu post, e principalmente a tua postura. Eu vejo o programa que citou, não para debochar ou me divertir com a 'desgraça' alheia, mas sim para refletir e pensar em como agir para que não cometa os erros que estão sendo exibidos.

E enoja-me ver pessoas dizendo com a boca cheia que são amigas do filho. Eu não tenho pai e mae amigos, tenho pai e mae, e ponto.

Infelizmente temos muitas crianças mimadas com capacidade reprodutiva no mundo, e estamos vendo a consequencia disso.

[]'s

Carlos

ps. Pelo teor dos artigos, colocarei um link para você

7/27/2008

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