"Estamos todos deitados na sarjeta, mas alguns estão olhando estrelas"
Oscar Wilde

27 de mar de 2010

Eu tenho medo de voces pessoas

O casal Nardoni foi condenado como era de se esperar. Mais uma vez as pessoas se uniram, gritaram e desta vez comemoraram. Fogos de artifício. Tentativa de alcançar os criminosos e mostrar o quanto eles são monstruosos e detestáveis, linchando-os. O texto abaixo escrevi há dois anos, alguns dias após o crime se tornar o único assunto dos telejornais.



"Eu tenho medo de vocês pessoas, que rastejam solitárias e egoístas e subitamente se unem selvagens, matilha desgraçada e decaída, gritando refrãos estúpidos, procurando a oportunidade de cometar crimes anonimamente.

Eu tenho medo de vocês pessoas, que vestem máscaras de pieguices e sentimentos que não tem, que torcem nas mãos terços que não rezam e espremem lágrimas que não derramam por aqueles que lhe são próximos. Tenho medo das suas frases prontas, do seu senso absurdo de justiça, da ânsia em verem-se livres do peso da lei para darem vazão ao seu desejo destruidor. Não importam os alvos, não importa quem seja. Basta que lhes guiem, basta que lhes ordenem e juntam-se, maltrapilhos da alma, para obsessivamente perseguirem a presa manca.

Eu tenho medo de vocês muito mais do que do criminoso perseguido.

Eu tenho horror de suas caras de pobres de espírito, das suas religiões estúpidas que se apiedam do anjo branco bem nascido e ignoram todos os outros decaídos, que apelam para a ira divina como ignorantes do começo dos tempos.

Eu tenho medo de vocês pessoas, por que vocês são a maioria e a cada dia conquistam mais cargos de liderança e poder. Eu tenho medo de vocês que enfeiam este mundo tão bonito, que poluem meus ouvidos, que desgastam minha fé.

 Tenho medo de vocês,  entusiasmadas donas-de-casa, guardiãs da normalidade e do aceitável, munidas de pedras e paus, prontas para arrancar a pele de alguém e cometer crimes maiores que qualquer criminoso linchado. Eu tenho medo e o meu medo é muito maior do que minha compreensão.
Eu tenho horror a vocês.

22/04/08

2 de mar de 2010

Eu não


eu não tive baile de debutante, eu não me casei na igreja ou em qualquer outro lugar. eu não tenho irmã nem carteira de motorista. eu não consigo segurar a risada em situação nenhuma e eu não sei discutir falando baixo. eu não durmo antes da madrugada chegar e eu não acredito em destino. eu não viajei para o exterior e eu não conheço Salvador. eu não gosto de vulgaridade e eu não gosto de verão. eu não sou sociável e eu não sou quem  imaginei que seria aos 15 anos. eu não peço emprestado, eu não pergunto duas vezes, eu não sou meiga e não sou  paciente. eu não vou ao médico e nem vou ao oculista, eu não enxergo bem e meu pulmão não deve ser muito limpo. eu não suporto lugares fechados, eu não gosto de formalidades e eu não chorei com Titanic. eu não gosto de confusão, eu não gosto de multidão e eu não concordo com a maioria quase sempre. eu não sei fazer poesia, eu não sei escrever mas já escrevi muito. eu nunca digo à mim mesma que não consigo. eu não acredito em alma gêmea, eu não terminei a faculdade, eu não voei de avião. eu não sei falar inglês, eu nunca morri de paixão e eu detesto ouvir um não.

17 de fev de 2010

Eu sou de Peixes fora d'agua


Eu sempre tive uma grande dificuldade em manter amizades. Ultimamente virou praxe ler em bios e perfis coisas do tipo 'mal-humorado(a), sarcástico(a), irônico(a), não gosto de gente...' e blá blá blá, como se isso quisesse dizer: olha, sou inteligente, tão inteligente que é raro gostar de alguém. E não é o meu caso: não sou mal-humorada e gosto das pessoas. Eu gosto de gente, minha risada é fácil, minha simpatia é grátis. Mas sei lá, amizade é uma coisa muito difícil de fazer, de manter, de sobreviver por muito tempo.
 
Por que eu pensava que amizade era assim: eu gosto de você, você gosta de mim e não há censura. Mas não é bem assim, por que aprendi logo cedo que tudo vai muito, muito bem enquanto você concorda com as pessoas. Mas quando não concorda e diz isso claramente: sorry, não concordo, tenho outra opinião, ai já era, ai a tal amizade fica abalada.

Então as amizades se constroem na base da simpatia de comadres? ah, concordo cem por cento com você querida! aham, isso mesmo...Se é preciso fazer isso eu prefiro mesmo ficar aqui no meu canto quietinha, sem amigos, mas livre.

Pensar e expressar opiniões diferentes da maioria sempre me custou um preço muito alto: muito cedo tive que optar entre ser do time do eu sozinho ou me integrar ao cardume e sorrir muda nas discussões. E descobri que comigo é assim: você pode não gostar de mim - ok, sem problemas - mas eu gosto e seria uma violência grande demais comigo mesma fingir que não tenho uma opinião e pior, fingir que compartilho de uma opinião que rejeito.

Eu sou de Peixes, mas um peixe em fuga. Constantemente me pego sentindo e pensando de maneira muito diferente da maioria. Não sei andar em turma, em bando. Não uso coletivos. Sou o peixe que abandonou o cardume e que vive as consequências disso que é a solidão. Eu brinco que sou de uma outra espécie e que observo a raça humana e suas reações. Mas, mesmo que todo mundo pense de maneira diferente da minha, eu ainda gosto de gente, de pessoas. Eu só queria poder encontrar mais pessoas com a capacidade de gostar, de ter simpatia mesmo que as opiniões não sejam as mesmas. Não é nem uma questão de tolerância é só isso: eu gosto do jeito de fulano, como ri, como me faz rir, sua presença, sua aura. E tanto faz se ele gosta de verde-limão.

Vejo as pessoas respondendo de maneira bastante agressiva quando surge uma situação em que o outro não está disposto a dizer amém para angariar simpatia. Todo mundo se acha muito durão por que 'não leva desaforo para casa'. Todo mundo quer ter a última palavra e para defender o próprio (?) ponto de vista é incapaz de se dar a oportunidade de realmente ouvir e pensar no argumento contrário. Tomam um ' não concordo' como ofensa pessoal, agressão direta que deve ser retribuída de maneira sarcástica, ácida, corrosiva. Canso de ver, principalmente na Internet, pessoas envolvidas em discussões intermináveis  apenas por que não suportam concluir: 'talvez você tenha razão, não tinha pensado desta maneira' (e se fulano tem coragem para isso pode até acabar sendo considerado fraco por que não lutou até o fim para manter uma opinião).

O orgulho tem impedido as pessoas de trocarem e eu acho isso uma pena.

Eu sigo aqui, espectadora da multidão, que ora se une para linchar algum vilão imaginário, ora se junta para idolatrar algum herói de mentira, me perguntando sempre: de onde vem o medo de pensar/opinar sozinho?



8 de fev de 2010

Minha meta

Eu nunca fui de criar metas, sempre fui meio hippie, deixando a vida me levar, sem fazer planos, sem tentar controlar o amanhã. Nunca tive um objetivo que não fosse viver plenamente o dia de hoje, cada minuto, cada segundo, como se fosse o último. Acho que por que assisti pessoas que poupavam e faziam planos partirem sem tempo para realizar sonhos é que passei a não acreditar em amanhã. Me fez pensar que não valia à pena poupar, guardar, aguardar. Me fez sentir que era melhor viver o agora e ponto final.


Mas este ano, sei lá, eu tenho um desejo. É um desejo tão forte, tão urgente, que me vejo obrigada a calcular todos os meus passos para conseguir o que quero. Eu quero muito sair de São Paulo. Quero morar em uma cidade do interior, de preferência no meio do mato, de preferência com janela dando vista para alguma árvore enorme e cheia de passarinhos ou um lago. Quero acordar de manhã e não ouvir a sinfonia caótica das buzinas malcriadas, dos gritos que tentam ultrapassar os decibéis do trânsito, nem os berros dos feirantes e seus gracejos toscos. Não quero mais andar pelas ruas com um baita medo do carro que vem de lá, do outro que vem de cá e do farol que parece não funcionar muito bem. Cansei do calor que vem do asfalto, do olhar desconfiado dos vizinhos, do medo da noite, do portão sempre trancado, da agressividade crescente de um povo oprimido pela pressa. Cansei de ter medo daquele homem que vem cambaleando rente ao muro, de tolher a liberdade da minha filha e de tentar protegê-la colocando-a diante da tv.

Eu quero viver num lugar onde eu conheça as pessoas e elas me conheçam. Onde eu possa andar descalça na terra, onde possa pescar de vez em quando e brincar de plantar qualquer coisa só pra ver se levo jeito.


Não, eu não vou sentir falta de nada que esta cidade oferece. Eu não sinto agora, não vou sentir quando tiver o que sonho. Nesta altura do campeonato eu já sei que não me identifico com uma metrópole, que não levo jeito para viver aqui. Nesta altura do campeonato nada aqui me encanta, eu que não gosto de multidão, barulho e balada.

Este ano eu me dei conta que a única coisa que realmente me incomoda neste vida é esta sensação constante de estar deslocada, de ter me perdido do meu caminho, de ter nascido aqui por acidente. E eu não quero mais conviver com esta insatisfação, eu quero MESMO sair daqui. E por isso, pela primeira vez, tenho uma meta, um objetivo claro e eu vou fazer tudo o que puder para influenciar o amanhã. E olha só, não estou sozinha nessa, o João compartilha comigo este desejo, é sorte demais.

Pode parecer uma coisa muito boba, ela tem esse sonho tão singelo, que tolinha. Mas eu digo que, prestes a completar meus 37 anos, já absorvi desta cidade tudo o que podia. Já andei por estas ruas suspeitas, já virei as madrugadas por ai e conheci pessoas de todos os tipos. Já vi as cenas mais bonitas e as mais cruéis, já respirei São Paulo demais. Eu não preciso mais desta cidade e ela certamente não precisa de mim. E depois de ter atravessado uma vida toda sob o jugo de escolhas que não fiz (eu não escolhi meu nome, meu local de nascimento, minha família, minha aparência e vai...), caceta, eu mereço pelo menos decidir onde é que eu quero envelhecer.

Em no máximo três anos espero conseguir desatar todos os nós e transferir meu destino para algum lugar mais habitado por árvores que por pessoas e que essas pessoas sejam receptivas e simpáticas, menos desconfiadas que as que encontro por aqui. Desejo-me sorte.

*** Aproveitar para agradecer o carinho das boas-vindas do Cidão e do Luan ao Ás de Espadas. Beijão pros dois ;) ***

6 de fev de 2010

Inauguração


Layout pronto (dois dias de trabalho) e absolutamente nenhuma idéia na cabeça...
Este deve ser o quarto blog pessoal que crio. Talvez eu não o abandone, como fiz com todos os outros, mas não prometo nada, nunca.

Criar este blog tem muito a ver com a minha falta de entusiasmo com todos os outros - TNB e outros que ninguém conhece. É uma tentativa de achar graça ainda em blogar, em resgatar aquele entusiasmo que havia no começo, quando eu nem imaginava que tanta gente tinha blog, quando nem sonhava que pessoas (juram que) vivem disso. Quando blogar era uma novidade maravilhosa e não um comércio ou uma arena de egos.

Com este blog eu pretendo voltar a 2003, escrever para ninguém e ficar toda surpresa se surgir algum comentário. Escrever minhas abobrinhas, algumas memórias e colecionar os links que me agradam.

Com este blog eu quero me agradar, só isso.

21 de mar de 2009

Eu



Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

16 de set de 2008

Liberdade



Quando era criança, sonhava em ser livre. Presa na casa pequena e modesta que não contava nem com um quintal para abrigar meu desejo de correr sem parar, colava o rostinho no vidro frio da janela e sonhava que virando a esquina, do outro lado da rua, logo ali, havia um circo e um dia eu conseguiria escapar e correr para lá e poderia então ver de perto como os trapezistas voavam pelos ares feito pássaros livres.

Eu sonhava que tinha asas e voava acima dos telhados e ninguém, ninguém podia me alcançar; eu lá  no alto, tão acima de tudo, tão perto do céu. Era tão bom sonhar assim, enquanto os meus olhos mal viam as dezenas de carros que passavam por minuto na rua movimentada e perigosa em que vivia. Às vezes, quando ia ao parque, me deitava no chão para olhar o céu e sentia aquela imensidão azul me devorando, me atraindo para o alto e parecia até sentir a terra girar sob o meu corpo. Nem sei explicar. Sentia medo, vertigem. Era espaço demais, era céu demais e eu queria voar.

Adolescente, tantas e tantas vezes eu me ressenti com todos os nãos que vinham sem explicação, sem justificativas. Era não e pronto. E eu que era tão esperta, e eu que era tão inteligente, reconhecia nas constantes negativas uma ignorância muito grande, uma falta de confiança na minha suposta maturidade que me ofendia até os ossos, que me fazia sentir um rancor imenso. Eu queria, eu precisava ser livre para provar quem eu era, o que queria, o que sabia.

Tantas vezes eu quis falar e não pude. Tantas vezes eu quis chorar e não pude. Eu queria liberdade de me expressar sem ser punida. Passei então a acreditar que escrevendo poderia me libertar. Preenchia cadernos e mais cadernos com meus poemas fraquinhos, meus contos tolos de adolescente inexperiente e ingênua, minhas revoltas pueris. Mas, ao contrário do que tanto sonhei, não me tornei escritora, nem ao menos completei meus estudos. Uma pessoa, sem ser convidada, leu meus cadernos e me disse que tudo o que eu escrevia era bobagem, uma porcaria, que não entendia como alguém podia me considerar inteligente. Aquelas palavras fizeram meu sonho ruir. Nunca mais escrevi sem sentir vergonha, a mesma vergonha que eu sinto agora enquanto cutuco o teclado.

Adulta, eu queria ser livre para viajar. Queria conhecer o mundo todo, culturas diferentes, pisar onde a História se fez, onde personalidades que eu admirava haviam pisado. Queria a liberdade que o dinheiro compra para viver ao meu modo, para conhecer gente, para sair quando bem entendesse e talvez voltar nunca. E queria me livrar da solidão, viver um sonho de amor, me apaixonar.

Hoje, aos 37 anos, eu queria mais que tudo me livrar das lembranças, do passado, do peso de sentir que não sou nada, não realizei nada e sofri por tempo demais. Hoje eu busco me libertar de todas as influências, de tudo o que já me disseram e desta tristeza enorme que acorda comigo e se arrasta ao meu lado durante todo o dia. Queria me livrar destes sonhos que me acordam no meio da noite, do medo, da dúvida, desta saudade estranha que nunca descobri de quê.

Queria me livrar desse desamor por mim, eu que um dia, lá longe, bem longe de hoje, cheguei a me gostar.

Liberdade. Quem é livre? Eu não conheço uma só pessoa que possa me ensinar a ser livre. Acho que é só mais um sonho. Liberdade é coisa que não existe.

8 de ago de 2008

Férias, zoológico...

Feito uma bandeirante animadinha, arrastei a família nas férias para um passeio no Zoológico. Vou eu na frente, empolgadíssima, explicando que as crianças (minha filha e meu enteado) terão a possibilidade mágica de ver de perto os bichinhos que eles só viam na tv. Meu marido levando nas costas uma mochila de alpinista de trocentos quilos - lanches, trocas de roupa, farmácia ambulante, aquela coisa, e eu blá blá blá.

Enfim, só eu achei tudo maravilhoso. Meu enteado se arrastou o tempo inteiro com uma cara de quem estava sendo obrigado a tomar um litro de óleo de fígado de bacalhau. Cansado, muito cansado...(Deus, de quê?). Minha filha só se animou quando saiu à caça de gravetinhos e palitos de picolé pelo chão. O bicho que ela mais gostou? O camelo, onde o fedor era insuportável. Ele é fedido mais é legal, declarou ela. Ok, cada um com suas preferências.

Vai aqui umas fotos que a mamãe empolgadona tirou, sempre exagerando nas exclamações e no uso do lugar-comum, repetindo à exaustão frases do tipo 'que maravilha é a natureza!'

Um macaquinho sobe num pau enquanto outro me ignora (mulher louca...)



O Pensador



O povo gritava 'Acorda leão, acorda!' e ele nem tchuns (juro que nessa hora eu tava quieta)

te desprezo


Coisa linda



Amigo fedido da minha filha



Urso fazendo Deus sabe o quê



Dois avestruzes me ignorando

disfarça miga que tem uma loka atrás da gente


Dois avestruzes disfarçando




Enfim, as fotos ficaram péssimas, eu sei...Mas pelo menos EU me diverti :)

12 de jul de 2008

Pais e Filhos

Eu fico abismada quando algumas vezes assisto alguns trechos daqueles programas em que babás profissionais são chamadas para por ordem na casa de alguma mãe descontrolada e à beira de um ataque total de nervos. Fico aflita com a fraqueza dos pais, com a falta de educação das crianças e com o vexame todo sendo exposto em rede nacional. Raramente assisto até o final (aliás, raramente assisto qualquer programa na tv aberta até o fim...) e sempre que me afasto da tv fico pensando:' que diabos aconteceu entre a geração da minha mãe e tias e a minha? Onde foi que as mulheres desaprenderam a criar filhos? Será que a culpa é dessa psicologia de revistas femininas? É culpa da tal vida moderna, onde a mãe também trabalha e fica ausente?' Mas, peralá, todos os três ou quatro programas que assisti pela metade mostravam famílias onde as mães não trabalhavam fora e pareciam escravas de pivetes ditadores. Mulheres nervosas, chorando pelos cantos, enquanto os pirralhos destruíam a casa e as agrediam com palavras e socos. E em todos os programas um pai banana chegava do serviço e se trancava em algum cômodo, fingindo não ver a cara de desespero da mãe e todo o caos instalado.

Quando foi que uma mulher precisou pedir a ajuda de um programa de tv para educar seus filhos?

Minha mãe teve quatro filhos, um por ano. Eu e meu irmão imediatamente mais velho (sou a terceira) temos apenas 11 meses de diferença. Loucura, loucura, loucura, já repetiria o apresentador de programas bem-feitinhos Luciano Huck.  Mánemmorta que eu faria isso, mas ela fez, ponto. E minha tia teve seis e a outra cinco. Elas não se pareciam nem um pouco com as mães que aparecem felizes e sorridentes nos comerciais intoleráveis de margarina - berravam o dia inteiro - mas nunca que um filho respondia ou enfrentava. Havia autoridade na voz, no olhar, nos gestos e um último recurso, quando tudo o mais falhava,  era o 'vou contar para o seu pai', que fazia a pirralhada toda se borrar e ficar muda.

Aí surgiu esta coisa de pai/mãe amigo...e ferrou tudo.

Pai e mãe não é amigo. Amigo é o primo, o colega da escola, o pessoal da rua. Pai e mãe é figura de autoridade, as primeiras na vida de uma pessoa. Se uma criança não tem guardada nenhuma figura de autoridade, se é livre 'pra se expressar' e mandar a mãe práquele lugar, vai se transformar num adolescente delinquente que agride professores ou qualquer um que tentar liderar.

Minha mãe dizia não e pronto. Hoje eu vejo as mães pedindo para os filhos '...por favor filhinho, não faz assim não...' e o moleque enforcando o cachorro, '...por favor filhinha, mamãe fica triste...' e a filhinha arrancando tufos de cabelo da mãe. Você vai se matar de pedir por favor e eles não vão nem ouvir. Eles querem ver qual é o seu limite.

Criança gosta de disciplina. Criança gosta de autoridade. Criança precisa disso.
Todo animal que vive em bando tem um líder. Quando o líder morre, imediatamente é substituído por outro. É uma necessidade para que o grupo fique unido. Se o líder é fraco, não reage, um outro vem e toma o lugar.

Nestes programas o que eu vejo são pivetes de cinco, seis, sete anos tomando o lugar que deveria ser dos pais. E a vida familiar se transforma em um inferno. Aí vem uma babá de um programa de tv ensinar a ser líder, a dizer 'não'. Eu penso que estas mulheres (e estes homens) são ainda crianças mimadas, inconformadas com os 'nãos' que ouviram de seus pais. Pensam que fazendo diferente, permitindo absolutamente tudo, serão muito mais amados ou que deixarão recordações mais felizes.

Minha filha tem 3 anos mas sua inteligência é muito acima da média. Lidar com uma criança inteligente requer inteligência também. Ela tem 3 anos mas sabe manipular desde 1 ano e meio. Primeiro ela dá uma ordem. Eu digo não. Depois ela choraminga. Não. Aí ela passa a gritar. Não. Então ela me cobre de beijos, diz que me ama. Também te amo mas é não. Então ela apela: não gosto de você. Aí eu me abaixo, fico na altura dela, olho bem dentro dos olhos e digo 'você me ama sim e ama muito e eu não vou deixar fazer tal coisa'. Ela me abraça e esquece o assunto.

Você acha que eu vou me descabelar ou permitir coisas impróprias por que uma menininha de 3 anos disse que não me ama? Eu tenho 35 anos, não cinco. Quem manda sou eu. E ponto. Se eu apenas desconfiasse que seria incapaz de dizer não em benefício de um filho ou em benefício da família, jamais teria aceitado ser mãe. Por que ser mãe não é ser um poço de amor e perdão incondicional e ternura constante. Ser mãe é ser a primeira figura que estabelece limites. É perceber que é muito melhor seu filho pequeno chorar hoje por ter ouvido um não do que ela chorar no futuro vendo ele fazer um monte de besteiras e se destruir, por ser totalmente incapaz de lidar com frustrações.

Penso eu.

15 de abr de 2008

Eu gosto de rir

O meu humor vai do seco/sarcástico ao completo besteirol, dependendo do dia. Se tem uma coisa que gosto nessa vida é rir. Certa vez li, não lembro onde:

Há um rumor de amor no humor


E eu acredito mesmo nisso por que as pessoas que mais gosto, aquelas que me cativam para toda a vida, são justamente as que me fazem rir.

Como eu tenho um lado palhaço, costumo surpreender meu cônjuge com algumas bobeiras. Como incorporar personagens, falar com sotaques, teatralizar exageradamente situações, espalhar desenhos pela casa ou encher seus bolsos de bilhetes bobos, que ele acaba achando no trabalho, justamente quando não pode rir. Enfim, gosto de quebrar a rotina com as minhas bobagens e ele gosta das minhas bobagens, então, vai tudo bem...

Ele trabalha à noite, como eu trabalhei por quase 10 anos. Hoje eu fico aqui no aconchego do lar, com minha filha, fazendo as coisas que gosto. Tenho por costume esperar acordada, nem que for pra dizer tchau, vou dormir. Mas, numa noite dessas não aguentei, o sono era maior. Eu estava com uma gripe muito forte, precisava descansar. Mas não queria deixar ele sem boa-noite e não sabia o que fazer. Foi quando bati os olhos na fruteira...






Uma das peras ficou de olho roxo...




Mas, quem adorou mesmo, quando viu na manhã seguinte, foi a pequena...





É ótimo ser assim boba, quando a plateia é uma criança :-)